Educação sexual na primeira infância como instrumento protetivo no desenvolvimento integral da criança e na prevenção da violência de gênero nas escolas e na família

Maria Cristina Milanez Werner

 

Falar sobre sexualidade é sempre um desafio, pois a sexualidade humana sofre olhares atravessados e má vontade no acolhimento de suas questões; além de já ter sido considerada pura ou depravada, conforme as visões moralista, religiosa, política ou higienista. Sabemos que em cada etapa da vida espera-se expressões diferentes da sexualidade humana. Bebês, crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos podem apresentar comportamentos semelhantes ao redor do mundo em cada uma dessas fases da vida, pois o pilar biológico da sexualidade é comum a todos os seres humanos; sendo apenas diferenciado pelos aspectos psicológicos e sociais. Recentemente, a Unesco – Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura afirmou que é necessário aprofundar o debate sobre sexualidade e gênero nas escolas, pois isso contribui para uma educação mais inclusiva.

Antes dos anos 50, o tema da sexualidade era regulado pela igreja ou pelo Estado, com foco no pecado ou na reprodução; porém, após esse período, o estudo sobre Sexualidade Humana ganhou impulso na ciência. A partir dos primeiros estudos, os conceitos e as ideias principais que temos hoje foram ganhando corpo; com o avanço nas pesquisas, a sexualidade foi adquirindo independência teórica e científica. O desenvolvimento de medicações para mulheres (anticoncepcional) e homens (combate à disfunção erétil), as cirurgias de transgenitalização e as técnicas de reprodução assistida impulsionaram consideravelmente o estudo da sexualidade, atingindo assim um lugar de interesse acadêmico, clínico e até econômico.

No pensamento ideal popular, as expressões de sexualidade humana eram um privilégio dos adultos, restando às outras idades qualificações menos honrosas. Muitas vezes, os idosos são ridicularizados em suas manifestações sexuais por serem considerados velhos para tais práticas, como se estivessem com o “prazo de validade vencido”. Já os adolescentes, são considerados imaturos, inexperientes e precoces para iniciarem uma vida sexual, como se estivessem agindo “antes da hora”. As crianças são consideradas como anjos, sem expressões sexuais.

A ciência veio para desfazer todas essas compreensões erradas sobre o exercício sexual. A atividade afetiva e sexual dos adolescentes é necessária, pois a experimentação será a base do exercício pleno quando adultos; e quando se tornarem idosos, terão um grande reportório de respostas sexuais disponíveis para até o fim da vida, mesmo que sejam substituídas por atuações sexuais com menos intensidade e tempo. O desenvolvimento da sexualidade do bebê e da criança acontece quando eles começam a ter contato com a realidade ao seu redor; normalmente, em situações de contato com outro humano. Essa troca acontece na hora da amamentação, nas trocas e limpezas higiênicas, na hora do banho e de troca de roupas, no embalar e colocar para dormir e, posteriormente, a criança irá vivenciar sensações físicas, afetivas e sociais de prazer e desprazer, que serão base para as sensações sexuais parciais no presente e plenas no futuro.

De acordo com esta autora (WERNER, 2016), há três “caixas de entrada” de estímulos sexuais que irão formar a pirâmide de informações para o bebê e a criança, na construção da sexualidade:
1ª O intrapsíquico – a descoberta do próprio corpo
Conforme o bebê vai descobrindo seu corpo, ele também vai experimentando sensações de prazer e desprazer. Chupar os dedos dos pés e das mãos pode ser uma forma para se acalmar.
2ª O inter-relacional – a interação com figuras parentais e afetivas
Vários estudos já provaram a necessidade que os bebês e as crianças têm de serem cuidados, dos vínculos afetivos e da satisfação de suas necessidades e seus desejos. Quando essas três tarefas são cumpridas, o bebê e a criança se sentem amados, desejados e acolhidos. Porém, se houver algum tipo de desvio, será formada uma base nociva para a sexualidade presente e futura deles.
3ª O mundo digital – a mediação tecnológica entre o bebê, a criança e o mundo externo
Aos poucos, os brinquedos conhecidos mundialmente como fonte de entretenimento para crianças – urso de pelúcia, bonecas e carrinhos – perderam força e foram substituídos por brinquedos eletrônicos – joguinhos e vídeos disponíveis em celulares e tablets. A animação versátil, as cores vibrantes, os sons e as musiquinhas, que tanto prendem a atenção das crianças, podem até ser educativos, mas correm o risco de impedir a expansão da criatividade e da interação delas com o mundo ao redor; já que com os eletrônicos não se exige esforço, e essa ausência de esforço poderá fazer falta no futuro.

É na infância que surge a curiosidade infantil; e é a curiosidade que impulsiona as primeiras descobertas sobre o corpo e sobre a sexualidade. Hoje, é importante que os pais conheçam e compreendam bem as possíveis identidades de gênero, as possíveis orientações sexuais e os possíveis arranjos familiares atuais. Não que eles precisem explicar toda essa diversidade para as crianças, mas eles mesmos precisam entender para que quando a criança começar a perceber essas variações, os responsáveis possam ir aos poucos, na medida da curiosidade e descobertas, esclarecendo sem preconceitos e sem tabus.

O Marco de Educação 2030 chama atenção para a importância da perspectiva de gênero na educação e sobre grupos vulneráveis. Assim como a Unesco, que acredita que a educação em sexualidade e de gênero é fundamental para que meninos e meninas entendam que têm os mesmos direitos, a fim de erradicar e prevenir qualquer forma de violência, principalmente a baseada no gênero. Mas, sem dúvida, o melhor espaço para que todas essas propostas aconteçam é nas conversas em família. Diferente do que muitos pensam, orientar crianças pequenas sobre sexualidade humana não as predispõe a uma iniciação sexual precoce; pelo contrário, se cria uma ambiência de confiança e intimidade. Esse diálogo pode construir maior compreensão e aceitação por parte de todos, para que as discussões sobre diversidade possam incluir questões de gêneros e de papéis sociais.

Compilado do texto: WERNER, Maria. Neurociência e Educação na Primeira Infância: progressos e obstáculos. Brasília; Senado Federal; Comissão de Valorização da Primeira Infância e Cultura da Paz, 2016